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Vaticano surpreende fiéis e declara: “Maria não é corredentora com Jesus”

Vaticano surpreende fiéis e declara: “Maria não é corredentora com Jesus”

O Vaticano decidiu encerrar, de vez, uma das discussões mais antigas da Igreja: a Virgem Maria não pode ser considerada “corredentora”. Em outras palavras, ela não compartilha com Jesus o poder de salvar a humanidade dos pecados. A decisão vem do Dicastério para a Doutrina da Fé, órgão responsável por tratar dos temas teológicos mais delicados, e coloca um ponto final numa disputa que durava décadas entre estudiosos católicos.

O documento, divulgado nesta terça-feira (4), foi apresentado pelo cardeal argentino Víctor Manuel Fernández, atual prefeito do Dicastério – o mesmo cargo que um dia foi do famoso Santo Ofício, responsável por zelar pela doutrina da Igreja. O texto, chamado Mater Populi Fidelis, detalha os diversos títulos atribuídos a Maria ao longo dos séculos, mas deixa bem claro: ela não é redentora, nem mediadora, nem doadora de graças.

Segundo o texto, o problema de chamar Maria de “corredentora” é que isso acaba ofuscando o papel único de Jesus Cristo na salvação. “É sempre inoportuno o uso desse título”, afirma o documento, explicando que tal expressão “pode gerar confusão e desequilíbrio na fé cristã”, já que o único mediador entre Deus e os homens é o próprio Cristo.

Em outro trecho, o Vaticano reforça que não existe outra mediação na graça além da de Jesus, e que Maria deve ser vista de forma “subordinada” à obra da redenção. Ou seja, ela intercede, protege, inspira, mas não concede graças por si mesma. O papel dela, de acordo com o texto, é “dispositivo” – ela ajuda os fiéis a se abrirem à graça divina, mas quem realmente a infunde é o Senhor.

Esse tema da “corredenção” é velho conhecido entre os teólogos, especialmente os chamados mariólogos, estudiosos que se dedicam à figura da mãe de Jesus. Há décadas, eles debatem se o amor e o sofrimento de Maria, ao lado do filho, poderiam ser considerados uma forma de participar na salvação da humanidade.

Entre os católicos mais conservadores, a ideia da “corredentora” sempre teve força. Muitos pediam ao Vaticano que transformasse essa crença em um novo dogma — o que tornaria oficial e inquestionável dentro da fé católica. Hoje, a Igreja reconhece apenas quatro dogmas sobre Maria: que ela foi concebida sem pecado original, permaneceu virgem, foi mãe de Deus e foi assunta ao Céu.

Essa discussão, no entanto, não é nova. João Paulo II chegou a usar o termo “corredentora” em alguns discursos, o que acendeu esperanças entre os fiéis devotos de Maria. Já Bento XVI preferiu não tocar no assunto, e o atual papa, Francisco, foi ainda mais direto: numa homilia em 2019, chegou a dizer — “Quando vierem com histórias de novos dogmas, não nos percamos em bobagens”.

Mesmo com a resistência da Santa Sé, o movimento a favor do dogma persistiu. Em 1996, durante o XIII Congresso Mariológico Internacional, realizado na Polônia, uma comissão já havia se posicionado contra a ideia. Mas isso não impediu que, ao longo dos anos, surgissem petições e campanhas.

Uma delas, chamada “Vox Populi Mariae Mediatrici”, chegou a reunir 8 milhões de assinaturas, além do apoio de 570 bispos de 79 países. Entre os apoiadores estavam religiosos e fiéis que acreditam que Maria, ao participar do sofrimento do filho, também teria um papel ativo na redenção.

Santos famosos, como Padre Pio, Madre Teresa de Calcutá e Maximiliano Kolbe, também já se referiram à Virgem como “corredentora”. Mesmo assim, o Vaticano manteve a posição: a fé católica reconhece a importância e a devoção a Maria, mas a salvação vem unicamente de Cristo.

Com essa decisão, o Vaticano tenta evitar novas divisões internas e deixar claro que, apesar de ser amada e venerada, Maria não está no mesmo patamar do Redentor. Uma resposta que, para muitos católicos, encerra de vez um debate que já durava mais de meio século.

 

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