O Rei vive sob um véu de perfeição, mas por trás das rosas e do terno branco, esconde-se um tormento que o acompanha há décadas e dita cada passo de sua vida. saiba mais
A Queda do Véu Branco: Aos 83 Anos, Roberto Carlos Expõe Suas Batalhas Mais Íntimas, do TOC à Guerra Pela Privacidade
Por mais de seis décadas, Roberto Carlos Braga se estabeleceu não apenas como o “Rei” da música brasileira, mas como um ícone de devoção, romantismo e uma perfeição quase intocável. Sua imagem, cuidadosamente lapidada em trajes brancos, com rosas na mão e canções que são a trilha sonora de milhões de vidas, sempre sugeriu uma existência imune às turbulências humanas mais rasteiras. No entanto, aos 83 anos, o artista que outrora era conhecido por seu silêncio impenetrável e sua aversão a controvérsias, parece ter decidido confrontar o público — e a si mesmo — ao desvelar as batalhas internas e as decisões polêmicas que moldaram o homem por trás da lenda.
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Os momentos de revelação de Roberto Carlos, longe de serem explosões de escândalos, consistem em admissões sobre suas lutas pessoais mais profundas, a intransigência em proteger sua imagem e o impacto devastador de suas perdas. Ele admite o que muitos há muito suspeitavam: que a perfeição que ele projeta é, na verdade, uma armadura forjada pelo sofrimento e por um Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) que o acompanha desde a juventude, ditando rituais rigorosos em sua vida e arte.
A Força Brutal de uma Infância Marcada
A jornada de Roberto Carlos começa em Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, em 1941. Sua paixão ardente pela música surgiu cedo, mas sua vida foi dramaticamente marcada aos seis anos. Um acidente brutal com um trem resultou na amputação de sua perna direita. Esse trauma poderia ter sido um ponto final, mas para o jovem Roberto, serviu como o catalisador de uma resiliência indomável. A música, influenciada pela Bossa Nova, Rock and Roll e Blues, se tornou seu refúgio, sua forma de reescrever seu destino, levando-o ao Rio de Janeiro e ao fenômeno da Jovem Guarda na década de 1960.
Ao lado de Erasmo Carlos e Wanderléia, ele ascendeu ao estrelato. Canções como “Quero que Vá Tudo Pro Inferno” e “É Proibido Fumar” não apenas dominaram as paradas, mas definiram o espírito rebelde e jovial de uma geração. Seu sucesso foi estrondoso, transcendendo fronteiras e fazendo dele um ícone global, gravando em vários idiomas e vendendo mais de 140 milhões de álbuns ao longo da carreira. No entanto, por trás da voz que falava de amor e carisma, crescia a semente de uma obsessão.
O Cativeiro do TOC e a Obsessão Pela Perfeição
Um dos aspectos mais reveladores e menos compreendidos do Rei é sua luta contra o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). Roberto Carlos admitiu publicamente que esta condição impacta cada esfera de sua vida, desde o pessoal até o profissional. O TOC manifesta-se em sua busca incessante por rituais específicos e por uma perfeição que não admite erros ou improvisos.
No palco e no estúdio, essa obsessão o tornou um artista meticuloso e comprometido, mas nos bastidores, gerou tensões com produtores e músicos. É essa mesma condição que, no passado, levou o artista a tomar decisões que pareciam inexplicáveis para seus milhões de fãs.
O caso mais emblemático dessa obsessão pela ordem e pela fé é a canção “Quero que Vá Tudo Pro Inferno”. Por anos, o maior sucesso de sua juventude foi banido de seus shows. A justificativa era profundamente pessoal e religiosa: seu compromisso com a fé o fazia sentir-se desconfortável em cantar uma música que continha a palavra “inferno”. A decisão dividiu o público, com muitos lamentando a ausência do hit e outros respeitando a escolha pessoal do artista. Embora ele tenha voltado a incluir a canção em seu repertório anos depois, o episódio cravou a imagem de um artista que permite que suas convicções íntimas, muitas vezes ligadas ao seu TOC, sobreponham-se ao seu próprio legado artístico.
A Intransigência na Guerra Pela Privacidade
A busca por controle e perfeição de Roberto Carlos estendeu-se, de forma dramática, à sua vida pessoal. Em 2006, o Rei protagonizou uma das polêmicas mais intensas e divisivas da cultura brasileira: a batalha judicial contra o autor Paulo César Araújo e a editora que publicou a biografia Roberto Carlos em Detalhes.
Embora baseada em informações públicas e não sendo autorizada pelo artista, Roberto Carlos alegou que a obra invadia sua privacidade e exigiu sua retirada imediata do mercado. A atitude gerou um debate acalorado sobre os limites entre o direito à privacidade de uma figura pública e a liberdade de expressão na literatura.
Muitos criticaram sua postura como um ato de censura, argumentando que sua trajetória, como a de qualquer ícone cultural, deveria ser objeto de estudo e registro. Outros, no entanto, defenderam o direito de Roberto de proteger sua intimidade, especialmente considerando as perdas e traumas que ele enfrentou. A polêmica mostrou um lado de Roberto Carlos extremamente reservado e intransigente, disposto a usar seu poder para controlar a narrativa de sua vida, uma atitude que o isolou de parte da comunidade artística e intelectual
O controle obsessivo, no entanto, não o protegeu da maior de todas as dores: o luto. A vida pessoal do Rei foi marcada por amores intensos e perdas devastadoras. Depois do primeiro casamento com Nice, um de seus amores mais marcantes foi Maria Rita, com quem se casou em 1996. A relação era frequentemente descrita como um conto de fadas moderno, e Maria Rita se tornou uma musa inspiradora para muitas de suas canções mais românticas.
Infelizmente, a felicidade do casal foi tragicamente interrompida. Maria Rita foi diagnosticada com câncer em 1998 e faleceu no ano seguinte. A dor dessa perda foi tão intensa que a marcou de forma indelével. Ele dedicou canções emocionantes à sua memória, como Acróstico, comovendo milhões de fãs.
Essa tragédia expôs a fragilidade humana por trás do mito do Rei, mostrando que nem o estrelato nem a fortuna o tornaram imune à dor mais profunda. O luto de Roberto Carlos é, para muitos, a chave para entender sua intensa espiritualidade e sua busca por esperança e redenção em sua obra. Ele também enfrentou a perda de sua filha adotiva, Ana Paula, em 2011, um evento que o abalou profundamente, demonstrando que sua vida foi uma constante luta para equilibrar o sucesso estrondoso com tragédias pessoais devastadoras.
Outras “admissões” notáveis que geraram discussões vieram de suas mudanças de postura. Por um tempo, Roberto Carlos foi um fervoroso defensor da dieta vegetariana, promovendo seus benefícios em entrevistas. No entanto, em um momento inesperado, ele revelou ter voltado a consumir carne, citando razões pessoais e de saúde. A notícia causou desapontamento entre ativistas e fãs que o viam como uma figura inspiradora, mas o Rei tratou o tema com naturalidade, reforçando que sua escolha era pessoal.
Da mesma forma, o artista, conhecido por sua vaidade, comentou abertamente sobre a pressão do envelhecimento. Ele admitiu recorrer a intervenções estéticas e chegou a declarar que não gosta de ver o tempo passar no espelho. Para o Rei, cuidar da aparência é uma forma de respeitar o público e manter a confiança como artista, mas a declaração gerou um debate sobre a aceitação do envelhecimento natural, mesmo para um ícone.
O Legado de um Cronista das Emoções
O que Roberto Carlos, aos 83 anos, está admitindo não é um novo escândalo, mas sim a complexidade de sua humanidade. Ele está, finalmente, descortinando o preço pago pela coroa. O impacto de sua obra transcende os números de vendas recordes (mais de 140 milhões de álbuns). Ele é um cronista das emoções humanas, alguém que consegue traduzir sentimentos universais de amor, perda, fé e esperança em melodias simples, mas poderosas.
Sua longevidade artística, sua capacidade de se reinventar e sua presença constante nos especiais de fim de ano da televisão brasileira atestam o lugar único que ele ocupa no coração dos brasileiros. A distribuição de rosas brancas ao final de seus shows é o símbolo máximo dessa conexão, um gesto de carinho que se mantém inabalável.
Ao abordar temas como o TOC, a guerra pela privacidade, as perdas pessoais e até mesmo as contradições como o vegetarianismo, Roberto Carlos oferece uma visão mais honesta de si mesmo. Ele mostra que o Rei, com sua capa de perfeição, é, antes de tudo, um homem que luta com suas próprias obsessões, medos e tristezas. Sua grandeza reside não na ausência de falhas, mas na sua resiliência em continuar a criar, emocionar e se conectar, apesar das batalhas internas. O tempo só reforça a magnitude do seu legado.



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