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A Sexta-Feira da Paixão, à luz do Espiritismo, não se reduz à lembrança de um suplício

A Sexta-Feira da Paixão, à luz do Espiritismo, não se reduz à lembrança de um suplício

encerra na emoção religiosa de um dia grave. Seu sentido mais fundo repousa na revelação moral que a cruz oferece à consciência humana. Jesus não aparece, nessa leitura, como vítima destinada a apaziguar a ira divina, mas como espírito de ordem superior que atravessa a violência do mundo sem abandonar a lei do amor. Seu martírio não compra perdão. Seu exemplo ilumina.
A cena do Calvário, por isso, não pede culto à dor pelo gosto da dor. Pede compreensão da grandeza espiritual de quem, podendo responder com poder, escolhe permanecer fiel à mansidão, à verdade e à misericórdia. Cada gesto de Cristo naquele caminho extremo expõe a distância entre a brutalidade dos homens e a dignidade do espírito que já venceu em si o orgulho, o ressentimento e a vingança. A cruz, nesse horizonte, deixa de ser ornamento de sofrimento e passa a ser medida da consciência.
A visão espírita também recusa a ideia de um Deus que exige sangue para reconciliar-se com a própria criação. Deus não castiga um justo para absolver culpados. O que a Paixão revela é outra coisa: o mundo ainda fere aquilo que não compreende, persegue a pureza que o desmascara e resiste à verdade que lhe pede transformação interior. Jesus aceita a prova não para satisfazer um decreto celeste de expiação, mas para testemunhar, até o fim, que o amor não depende das condições do mundo para permanecer amor.
Por isso a Sexta-Feira da Paixão possui, no Espiritismo, menos o peso da culpa e mais o apelo da responsabilidade. Não basta comover-se diante do Cristo ferido. Importa perceber quantas vezes a vaidade, a dureza, a indiferença e a violência ainda crucificam, em escala menor, a verdade no cotidiano. A lembrança desse dia ganha valor quando deixa de ser apenas memória litúrgica e se converte em exame da alma. Cristo sofre diante dos homens, mas sua lição verdadeira começa quando cada consciência decide não reproduzir mais a sombra que o levou à cruz.

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