Mulher que recebeu falsa carta de médium: “Copiou até os erros da internet”
Nas últimas semanas, a equipe de reportagem do Metrópoles se debruçou sobre a investigação do trabalho da médium Maira Rocha, reconhecida no Distrito Federal por seu trabalho com cartas supostamente psicografadas. Após a veiculação da matéria na última segunda-feira (31/8), novas vítimas entraram em contato com o site para relatar suas experiências com o serviço oferecido por Maira.
Um dos relatos foi o de Eduarda*, que contou ser filha de pais kardecistas e, por isso, ter começado a frequentar o local chefiado pela médium, juntamente com as duas filhas e uma irmã, em 2019. Ela narrou que, quando conheceu a Casa de Caridade Inácio Daniel, achou o ambiente muito “comovente” e que via com frequência pessoas que recebiam as cartas deixando o local muito emocionadas.
Ainda segundo Eduarda, para receber a psicografia, era necessário escrever o nome em um livro — que passava em todas as sessões — e aguardar. “E sempre passava um livro grande e a gente colocava os nomes. Bem, isso foi em 2019, né? Eu tô falando isso do ano de 2019. E a gente colocava os nomes e ficava esperando se um dia essa ia carta chegar, né?”, contou.
No dia 4 de maio, a família ganhou sua carta do plano espiritual. O sentimento narrado por elas se assemelha ao de outras vítimas: em um primeiro momento, a emoção e o choro tomam conta; somente depois, começam a notar informações discrepantes contidas no texto.
“Eu confesso que no primeiro momento eu levei um susto, eu fiquei assim: ‘Gente, tem uns erros engraçados, né? Assim, não é erro, são umas maneiras estranhas, meu pai não falaria desse jeito’, mas você tá muito emocionado, então chora, tem aquela coisa toda, tudo bem”, detalhou.
Foi apenas na hora de voltar para casa que ela começou a perceber que algumas falas do texto estavam muito desconexas com a realidade de quando o pai, Felipe*, estava vivo. O primeiro ponto foi que Felipe teria errado a própria data de aniversário. O desconforto fez com que Eduarda entrasse na internet e começasse a pesquisar sobre a própria família.
De acordo com a vítima, muitos de seus parentes são funcionários públicos e, por isso, a missão de encontrar algo sobre eles no Google não é tão difícil.
“E aí eu fui, sentei num sofá e falei assim: ‘gente, deixa eu dar uma olhada’. Não sei o que aconteceu. Não sei se foram os espíritos protetores que viraram e eu comecei a fazer pesquisa na internet, sabe? Assim, eu comecei no Google e fui pegando o que tinha no Google do meu pai”.
Durante a apuração, ela achou um site que publicou o obituário de Felipe. O problema, no entanto, é que o site veiculou que ele havia nascido no dia 5 de março, quando, na verdade, ele nasceu no dia 16 — o mesmo erro escrito na carta da médium. A partir desse momento, o incômodo ficou mais evidente
A outra situação que despertou nela a necessidade de investigar mais a fundo a psicografia foi a forma como os nomes dos quatro filhos do falecido foram escritos. Eduarda contou que dois irmãos foram adotados e, quando isso aconteceu, ambos já haviam sido registrados com os nomes compostos: Ezequiel Gustavo* e Julia Amanda*.
Por escolha, os pais preferiram chamar os dois apenas pelo segundo nome. Ou seja, Gustavo e Amanda. Na carta, todavia, aparecem os nomes Ezequiel e Julia. Ela passou a se questionar se, após uma vida inteira, apenas no plano espiritual, Felipe teria decidido usar o primeiro nome dos filhos.
“A família nunca chamou eles de Ezequiel e Julia. Não existia essa possibilidade. Inclusive se pegar algum sobrinho meu e falar assim: ‘Você lembra do Ezequiel? Você lembra de Julia?’ Eles vão ficar olhando para a gente e falar assim: ‘Quem são esses?’. Porque eles só são conhecidos como Amanda e Gustavo. Aí estava lá na carta um abraço para Ezequiel e Julia. Falei: ‘Gente, que coisa maluca é essa?’ Meu pai nunca chamou. Então, assim, eu comecei a olhar a carta com cuidado”.
Ainda de acordo com o relato, a irmã detestava tanto o primeiro nome que, antes de falecer, ganhou um processo na Justiça para retirar Julia de seu registro de nascimento.
Eduarda contou que conseguiu descobrir que os nomes foram tratados exatamente como estavam no inventário realizado após o falecimento do pai — inclusive na mesma ordem. Após isso, entendeu que não se tratava mais de apenas uma coincidência.
“Eu falei assim: ‘É impossível. Impossível essa carta ter sido enviada do além. Não tem como ter sido enviada do além. Isso tudo tá dentro da internet’. Os equívocos todos e os erros todos estão dentro da internet”.
Outro nome errado aparece mais uma vez: a tia Lulu foi chamada de Luciana*, mas ninguém na família, em especial o falecido, a chama assim. Além disso, um erro cometido, supostamente, por Felipe é que ele teria citado que, durante a vida, exerceu as funções de médico* e eletricista*. Só que isso nunca aconteceu, segundo a família.
Denúncia na Federação Espírita
Após o episódio, a mulher procurou a Federação Espírita do Distrito Federal (FEDF) para denunciar o caso. “Como eu já disse, eu sou kardecista. O que eu pensei: ‘Eu vou na Federação Espírita de Brasília e dizer que tem uma médium fazendo escrevendo cartas e, no meu caso, é toda inverídica, e tudo o que está errado consta na internet”.
Segundo Eduarda, que segue a doutrina espírita, o questionar faz parte da religião. Não se trata de desacreditar no dom mediúnico, mas buscar pela verdade.
“A doutrina espírita, eu sempre aprendi isso, ela prega uma filosofia, fala de ciência, fala de não aceitar as coisas sem parar para pensar exatamente no que a gente está recebendo. Então, essa pesquisa, essa busca da verdade, ela é determinação da doutrina espírita. Quando eu vou ao centro, quando alguém vai e pesquisa um médium, não é porque está desfazendo da mediunidade em si ou da espiritualidade ou qualquer coisa”, contou.



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